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Americanos consideram que país não atingiu seus objetivos pós-11/9

Americanos consideram que país não atingiu seus objetivos pós-11/9

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setembro 11th, 2021

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Após 20 anos dos atentados, 69% da população dos EUA diz que país não obteve êxito ao invadir o Afeganistão

O ataque às Torres Gêmeas em Nova York, símbolo dos atentados nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, ajudou a moldar uma nova postura da sociedade ocidental.

As palavras “medo” e “desconfiança” passaram a ser protagonistas na rotina dos cidadãos e contribuíram para um exacerbamento do individualismo, dos discursos de ódio e, por outro lado, de uma busca por novos tempos de esperança.

“Até então o conceito de segurança e de conflitos internacionais estava relativamente restrito ao conflito entre estados e exércitos armados. O mundo pós-11 de setembro é marcado pela exposão de uma série de conflitos que não necessariamente são ligados ao embate entre Forças Armadas dos países, mas contra exércitos informais, grupos terroristas, caçadas humanas por conta das políticas de segurança que se estabeleceram”, afirma Alcides Peron, professor de Relações Internacionais da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).

Desde os atentados, que também atingiram o Pentágono, em Washington, e Shanksville, na Pensilvânia, foram mais de 2 trilhões de dólares gastos pelos quatro últimos presidentes norte-americanos: George W. Bush (2001-2009); Barack Obama (2009-2017); Donald Trump (2017-2021) e pelo atual governo de Joe Biden.

Demorou apenas um mês para o governo americano ordenar a invasão do Afeganistão, pela qual retirou do poder o Talibã, que ajudou o grupo Al-Qaeda e abrigou os seus combatentes para a organização dos atentados.

O objetivo dos Estados Unidos era dar mostras de que os radicais não iriam obter êxito em seus objetivos, além proteger os seus cidadãos, buscando uma maior estabilidade e sensação de segurança ao território americano. Mas, em paralelo, havia interesses ligados às grandes empresas de segurança americanas, conforme lembra Peron.

“Não foi só o governo americano que optou pela invasão, grandes empresas no estímulo à guerra participaram da decisão. Os Estados Unidos, desde o início geriram, no Afeganistão, a logística, a manutenção de tropas, a comunicação. Afeganistão e Iraque foram campos de testes de tecnologia e novos sistemas de armas para a guerra ao terror”, observa.

Para ilustrar, o professor cita episódios recentes em que membros do Talibã foram vistos utilizando equipamentos americanos.

“Foi anunciado que, após os EUA saírem do conflito, os talibãs se apropriaram de um conjunto enorme de dados biométricos deixados pelos americanos na região. Seria um erro do ponto de vista econômico dizer que objetivos não foram atingidos. Houve um enorme êxito para os Estados Unidos, boa parte do gasto retornava ao país, porque era direcionado a empresas de segurança, de escolta, mercenários, empresas de logística, telecomunicações, segurança privada, entre outras”, destacou Peron.

Retirada do Afeganistão

Vinte anos depois, no entanto, o que se viu foi a retomada do Talibã ao poder, após, durante esse período, o grupo reorganizar suas estratégias e recuperar a influência em várias regiões.

No último dia 15, as tropas do Talibã retomaram o controle de Cabul. E no dia 31, os americanos deixaram o país, após duas semanas tensas, com o aeroporto interditado e milhares de pessoas tentando fugir.

Houve muitas mortes, que aumentaram por causa de um atentado realizado pelo Daesh local ao aeroporto de Cabul. Entre as vítimas fatais estavam 13 militares americanos.   

Nestes 20 anos, os Estados Unidos e a Otan utilizaram mais de 2 mil militares no Afeganistão.

Na política externa, a ameaça terrorista pautou os governos, justamente para evitar uma volta de radicais islâmicos ao poder. Em 2011, com a captura de Osama bin Laden, o mentor dos atentados, e a Primavera Árabe, formou-se uma bolha de esperança no retorno de regimes democráticos à região.

A Guerra Síria, no entanto, serviu como uma mensagem de que tal objetivo estaria longe de acontecer, tendo, inclusive, fomentado o ressurgimento de milícias terroristas, como o Daesh e os próprios reminiscentes da Al-Qaeda.

Neste período, o Talibã foi se reestruturando, com o objetivo de transformar a empreitada americana contra o terror em uma nova Guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos deixaram o país asiático sem atingir seus objetivos de derrotar o governo comunista de então.

Descrédito da população

Por outro lado, internamente, muitos jovens americanos que não eram nascidos na época dos atentados de 2001, cresceram em meio a uma atmosfera que foi se modificando desde o trauma inicial.

“Uma revisão da opinião pública dos Estados Unidos nas duas décadas desde o 11 de setembro revela como uma nação fortemente abalada se reuniu, brevemente, em um espírito de tristeza e patriotismo; como o público inicialmente se mobilizou por trás das guerras no Afeganistão e no Iraque, embora o apoio tenha diminuído com o tempo; e como os americanos viram a ameaça do terrorismo em casa e as medidas que o governo tomou para combatê-lo”, destaca texto da Pew Research, entidade que pesquisou periodicamente o panorama da sociedade americana em relação aos atentados.

Na ensolarada manhã daquele 11 de setembro de 2001, terça-feira, quatro aviões voando sobre o leste dos Estados Unidos foram sequestrados ao mesmo tempo por terroristas da Al-Qaeda. Alguns treinaram inclusive nos Estados Unidos, sem terem sido flagrados.

Os sequestradores utilizaram os aviões lancá-los como alvos. Às 8h46, horário local, o primeiro atingiu a Torre Norte do World Trade Center. Às 9h03, um segundo bateu na Torre Sul.
No céu, a fumaça que se espalhava pela Baía do Hudson, trazia um clima de impotência e terror.

No chão, as pessoas, atônitas, observavam a inacreditável cena em que, em menos de duas horas, os gigantescos edifícios de 110 andares desabaram. E corriam em desespero diante da cena catastrófica, em meio a poeira e ruínas. 

Pouco depois, às 09h37, um terceiro avião atingia a face oeste do Pentágono, em Washington. – o gigantesco quartel-general das forças armadas dos EUA fora da capital do país, Washington DC.

E um quarto avião, às 10h03, caiu em  Shanksville, 81 minutos após decolar do Aeroporto Internacional de Newark. Heroicamente, os passageiros se rebelaram contra os sequestradores, evitando que o avião atingisse o seu mais provável alvo, o Capitólio, em Washington.

No lugar das Torres Gêmeas, foi construído o One World Trade Center. Inaugurado em 2014 como o edifício mais alto dos Estados Unidos, com 541 metros, o edifício se tornou um símbolo da reconstrução do país. Que ainda continua em andamento.

As cenas de heroísmo e terror deixaram um rastro pesado para os americanos, um legado de descrédito nas ações para conter o clima de ameaça. O país já não acredita que intervenções armadas nos países de origem do terror tenham êxito.

Uma nova pesquisa do Pew Research Center, que vem monitorando desde os atentados a reação da população americana às políticas do governo, apontou que 69% dos adultos norte-americanos afirmam que os Estados Unidos não conseguiram atingir seus objetivos no Afeganistão.

Além disso, neste momento em que novas gerações começam a ficar adultas no país, uma nova visão começa a ser implementada. Algo do nacionalismo que prevaleceu após os atentados, em busca de justiça, se arrefeceu. E 54% da população americana concordou com a retirada, segundo pesquisa do Pew realizada entre 23 e 29 de agosto últimos.

“Com a evacuação militar dos EUA do Afeganistão concluída – encerrando a guerra mais longa dos Estados Unidos – 54% dos adultos norte-americanos dizem que a decisão de retirar as tropas do país foi a certa, enquanto 42% dizem que foi errada”, informou a entidade.

Sem êxito militar

Para o professor de Relações Internacionais e Direito do Uniceub (Centro Universitário de Brasília), Danilo Porfírio de Castro Vieira, todo esse novo quadro demonstra que a política americana fracassou em seu objetivo de derrotar o Talibã.

“Houve fracasso depositado na conta dos três últimos presidentes. Os americanos e aliados não conseguiram suprimir essa força de insurgência, não conseguiram estabelecer uma ordem política, democrática e plural porque não há sentido de unidade nacional naquela região”, observa.

Castro Vieira não nega os argumentos do governo americano, sobre os problemas do exército afegão, a corrupção, a pobreza, os atraso de salários, mas, para ele, o pano de fundo diz respeito ás características da própria região, que não foram alteradas.

“Gostaria de conhecer um soldado de alta ou baixa patente do dito exército afegão que se vê como um defensor de seu país, e não de seu grupo ou etnia. O projeto de nação, de estado, de segurança dos americanos e dos ocidentais falhou muito. A intervenção foi apenas conter o avanço de um crônica anunciada. Isso que estamos vendo era algo que iria acontecer”, observa.

O professor Alcides Peron concorda neste sentido.

“Quando o presidente Joe Biden vem à tona e fala que a campanha foi exitosa, na verdade podemos lançar um ponto de dúvida, em primeiro momento houve êxito, mas por via miltarista e impositiva. A questão é que os talibãs são maioria étnica pashtuns e, no sudeste do país, boa parte das pessoas acabaram não participando de uma recomposição do governo”, diz. 

Além disso, o grupo não foi derrotado na prática. Continuou a desenvolver suas atividades, entre elas a produção de ópio e o tráfico de armas, que os financiou durante esse período. 

“Na verdade, os talibãs foram expulsos para outras localidades, mas mantiveram o processo econômico de financiamento de suas atividades localmente. Eram eles responsáveis ainda pela manutenção dos campos e produção de papoula, administração que levaria produção de ópio, eles têm laboratórios. Também participaram do tráfico de armas. Isso quer dizer que eles nunca perderam a guerra, mas mantiveram ativa sua atuação nas localidades”, afirma Peron.

No governo de Barack Obama, se iniciou um recuo das tropas, junto com ingleses e alemães, E no governo de Trump, além de uma retirada, houve uma tentativa de paz com o Talibã e a assinatura de um acordo para que, em 31 de agosto, as tropas americanas deixassem o Afeganistão. Mas já era tarde, segundo Peron.

“Quando você faz uma dinâmica de construção de um Estado sem chamar todas as partes para participar do processo, está ignorando uma parcela significativa da sociedade e construindo condições para que os conflitos se perpetuem. O Talibã não participou de maneira ativa dentro desse processos”.

O próprio Talibã, que em pashtu significa estudantes, foi formado com o suporte dos Estados Unidos que, para se contrapor à invasão soviética e ao governo socialista formado com a Revolução de Saur, incentivou escolas religiosas no Paquistão, para fortalecer grupos anti-soviéticos. Foi assim que alunos do Afeganistão foram enviados a essas escolas, (Madrassas) e se influenciaram por uma interpretação radical que lhes era passada da sharia.

Perpectivas

O mundo pós-11 de setembro passou mesmo por mudanças. A paranoia das pessoas ganhou força, grupos sociais se fecharam ainda mais em relação às diferenças, que viraram desconfianças. E a vigilância se tornou uma prática comum, conforme ressalta o professor Peron.

“Esses aparatos que foram desenvolvidos na esteira da guerra ao terror acabam sendo utilizados por governos para monitorar certos indivíduos, jornalistas, ativistas de direitos humanos, trazendo maior insegurança para a população”, ressalta.

E do ponto de vista geopolítico, o mundo é outro agora, o que torna muito pouco provável qualquer nova tentativa dos Estados Unidos de invadirem novamente o Afeganistão, em um longo prazo.

“Não vejo agora os Estados Unidos fazendo outra invasão na região, seria extremamente custoso e um alto risco estratégico. Nos anos 2000, os Estados Unidosnão não tinham potências rivalizando em termos econômicos, militares, estratégicos, até culturais. Eram a grande potência, hegemônica. A Rússia de Vladimir Putin ainda não tinha grande capacidade de contraposição e a China ainda não despontara como grande potência”, observa.

Algo totalmente diferente do que ocorre hoje.

“Hoje em dia o próprio Afeganistão é estatégico para a China, a partir dele se passa a nova rota da seda, que vai ligar comercialmente a China, por rodovias, ferrovias, portos, a pontos de escoamento, via mar e terrestre. Isso leva a necessidade da China investir e tentar manter estabilidade na região. Há informações que que apontam para uma harmonia de interesses entre China e Rússia. Uma tentativa de intervenção vai ser muito malvista pelas potências que têm interesses econômicos e não seria boa para os Estados Unidos, do ponto de vista estratégico”.

A tendência, neste sentido, é os Estados Unidos entrarem em uma nova corrida armamentista, pautada também no desenvolvimentos de estratégia de Inteligência.

“Talvez toda a dinâmica que teremos seja um crescimento de investimentos em grandes sistemas de armas que tornem os Estados Unidos capazes de rivalizar com as grandes potências que vêm emergindo”, completa Peron.

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